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Edward Jenner

 

Calcula-se que cerca de 60 000 000 de europeus morreram de varíola entre 1700 e 1800. o que corresponde à população das cidades de Nova York, Tóquio, Xangai e Moscou!

 

Na epidemia de 1721, mais da metade da população de Boston teve varíola e, uma dentre cada dez vítimas, morreu. Essa terrível doença se encontra extinta, e a grande maioria dos médicos jamais viu um caso dela. Tão grande mal foi varrido de todos os países, até mesmo dos mais pobres, pela vacinação, princípio desenvolvido pelo Dr. Edward Jenner.

 

 Edward Jenner nasceu a 17 de maio de 1749 no Gloucestershire, Inglaterra. O pai, que era clérigo, mandou o filho às escolas locais para a instrução primária. Jenner manifestou precoce interesse pela Biologia e seguiu, por isso, a carreira da Medicina. Um dos meios de se tornar médico naqueles tempos era estudar com outro médico, e Jenner se fez então aprendiz junto do cirurgião Daniel Ludlow. Aos vinte e um anos entrou para o St. George’s Hospital, de Londres, a fim de trabalhar com John Hunter, o maior cirurgião da época.

 

O Dr. Hunter tinha curiosidade e entusiasmo ilimitados; era um médico que gostava de experimentar. Infelizmente usava a si próprio como objeto de suas experiências e contraiu incurável doença que lhe destruiu a saúde e encurtou a vida. Se a si mesmo infectou com a doença, ao aluno infectou com sua filosofia: “Por que ficar na cogitação, por que não experimentar?”

 

John Hunter correspondia-se com Jenner e continuou seu conselheiro e amigo por toda a vida. Quando Jenner se formou no St. George’s Hospital, Hunter mandou-o de volta ao Gloucestershire para estabelecer clínica. Achava, parece, que Jenner sendo da “roça”, não seria feliz na cidade. Muito deve o mundo a essa decisão de retornar ao interior.

 

Antes do advento da Medicina científica e das modernas drogas “maravilhosas” (os antibióticos, por exemplo), reconhecia-se geralmente o valor dos remédios caseiros. Sabia-se que certas plantas eram dotadas de efeitos medicinais. A digitalis já era usada como remédio cardíaco muito antes de a medicina provar que era realmente eficaz. Muitas pessoas utilizavam mofos para curar infecções antes de Fleming descobrir a penicilina. Muitos insistiam que a cebola crua curava dor de garganta, e na verdade se descobriu que a cebola crua tem efeitos germicidas.

 

Entre os fatos conhecidos muito antes da ciência analítica firmar-se, figurava o de certas doenças só serem contraídas uma vez na vida. Os modernos pais ficam contentes quando suas filhinhas contraem rubéola, que pode ser muito grave na mulher adulta, mas é desprovida de conseqüências na criança. Se a menina adquire rubéola, fica imunizada contra ela para o resto da vida.

 

Espalhara-se a noção de que a pessoa que tinha varíola uma vez, nunca mais a apanhava. Povos orientais tiravam proveito dessa noção e deliberadamente se inoculavam as pessoas com material proveniente de variolosos. Haviam descoberto um método que supostamente atenuava os germes da varíola, de modo que as pessoas injetadas sofriam ataques leves da doença, ficando porém, depois de curadas, a salvo de novos e piores ataques. Infelizmente o processo funcionava irregularmente e muitos eram os que contraíam varíola grave quando inoculados.

 

A gente rústica do Gloucestershire sabia que quem sofresse ataque de uma doença chamada varíola bovina (cowpox) jamais contrairia a varíola humana. A varíola bovina, como seu nome indica, é doença que ataca os bois, mas ela pode pegar em gente. É curioso notar que os bois a contraíam como resultado de uma doença que atingia os cascos dos cavalos.

 

O Dr. Jenner interessou-se particularmente pelos casos de varíola bovina em pessoas. Foi estimulado por seu velho mestre Hunter, que disse: “Experimente; seja paciente, seja preciso.” Sem dúvida, um bom conselho para qualquer pesquisador científico. Ao todo, Jenner investigou vinte e sete casos. Publicou seus achados em 1796.

 

Jenner documentou cuidadosamente os seus casos. Nos primeiros estágios da investigação, notou que as pessoas que haviam tido varíola bovina não contraíam a varíola humana, ainda mesmo que postas em contato com doentes atacados desta última infecção. Tomou então um pouco de líquido das pústulas da varíola e injetou nos braços dessas pessoas, que continuaram refratárias à varíola humana.

 

Finalmente, e devemos prestar homenagem à coragem dos pais da criança, Jenner inoculou um sadio menino de oito anos, Jimmy Phipps, com o vírus da varíola bovina e nele produziu a doença branda. Mais tarde injetou a própria varíola humana no menino e numa outra pessoa que não fora atacada antes pela varíola bovina. Apareceu a varíola somente na pessoa que antes não tivera a varíola bovina, porém não no feliz Jimmy Phipps.

 

Quando Jenner publicou sua descoberta desabou verdadeira tempestade. Alguns objetavam a que se interferisse na natureza. Outros correram a reclamar para si a descoberta, e ainda outros usaram a mesma idéia, porém misturando matéria da varíola humana à bovina e assim matando, em vez de proteger, as pessoas.

 

Quando a sensação diminuiu, e Jenner pode demonstrar seus métodos, sobre ele caíram honrarias e reconhecimento de todo o mundo civilizado. O Parlamento o fez Cavaleiro e premiou-o com 20 000 libras esterlinas. Oxford concedeu-lhe título honorário. O czar da Rússia deu-lhe um anel de ouro. Napoleão, na França, enalteceu-lhe a descoberta. E dos Estados Unidos partiu uma delegação de índios levando presentes e agradecimentos a Edward Jenner.

 

Aquele homem tomara uma antiga superstição e provara existir nela algo de verdade científica. Teve a grande coragem de infectar seres humanos com uma doença leve para protegê-los contra uma terrível doença contagiosa. Era um médico de roça verdadeiro, pois, havendo recebido grandes honras, voltou de Londres ao seu Gloucestershire a fim de acabar seus dias no sítio que possuía. Morreu em janeiro de 1823.

 

Quando você olhar para uma pequena marca vacinal, pense na coragem das muitas pessoas ignoradas que se deixaram utilizar na experimentação. E pense no gênio de Edward Jenner, que imaginou a vacinação e assim nos protegeu da varíola. E pense também em todos os outros tipos de vacinação que protegem a nossa saúde, sem esquecer a descoberta pelo Dr. Jonas Salk para proteger-nos da poliomielite, a de Albert Sabin, cuja vacina é mais eficiente; as de Pasteur, Behring, Roux e outros que abriram o campo da vacinação e da soroterapia como verdadeiros gigantes.

 

 

 

 

NOTA: A varíola bovina era doença em geral localizada nas mãos das ordenhadeiras que mungiam vacas em cujos úberes havia pústulas da varíola bovina. Da observação de que essas ordenhadeiras não contraíam varíola humana, quando esta aparecia, é que partiu Jenner para suas monumentais experiências. A palavra vacina, que hoje se usa para todos os produtos biológicos preventivos, feitos com germes de doença, provém de vaca e das experiências de Jenner. Naquele tempo  não se sabia ainda que as doenças infecciosas eram produzidas por micróbios e vírus, sabia-se que elas se transmitiam de uma pessoa a outra por vários meios.